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Edição número 8 -
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Brasil, Novembro de 2000.

Breve - Dia 19 de novembro a Vampyr Home Page entrará no ar; assim você terá no Grupo MV o seu portal de sobre Vampirismo e Vampiros para toda a eternidade. Aguarde o chamado, ele virá!


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Artigo II - por: Morgana

Maupassant publicou 27 livros, sendo o Horla sua obra prima. Famoso em seu tempo, fin de siècle XIX, viveu uma vida quase luxuosa. Em seus últimos anos de vida, foi vítima constante de alucinações, tendo inclusive tentado o suicídio. Morreu no manicômio de Passy, na frança... quanto ao conto... ai está... tirem suas pròprias conclusões...

Au revoi...
Morgana

O Horla

O doutor Marrande, o mais ilustre e eminente dos alienistas, pedira a três dos seus colegas e a quatro sábios, que se ocupavam das ciências naturais, para virem passar uma hora com ele, na casa de saúde que dirigia, a fim de lhes mostrar um de seus doentes.

Assim que os seus amigos se encontraram reunidos, disse-lhes:

"Vou apresentar-lhes o caso mais bizarro e inquietante que já encontrei. Aliás, não tenho nada a dizer-lhes sobre meu cliente. Ele próprio falará."

Então o doutor tocou uma campainha. Um criado mandou um homem entrar. Ele era muito magro, de uma magreza cadavérica, como são magros certos loucos obcecados por uma idéia, porque o pensamento doente devora a carne do corpo mais do que a febre ou a tuberculose.

Tendo cumprimentado, sentou-se e disse:

"Meus senhores, sei por que estão reunidos aqui e estou pronto para contar-lhes a minha história, como me pediu meu amigo doutor Marrande. Durante muito tempo, julgou-me louco. Hoje duvida. Dentro de algum tempo, todos saberão que tenho um espírito são, lúcido e perspicaz quanto o dos senhores e para toda a humanidade.

Mas desejo começar pelos próprios fatos, pelos simples fatos. Ei-los:

« Tenho quarenta e dois anos. Não sou casado e possuo fortuna suficiente para viver com um certo luxo. Assim, morava numa propriedade às margens do Sena, em Biessard, perto de Rouen. Amo a caça e a pesca. Ora, tinha atrás de mim, acima dos grandes rochedos que dominavam a minha casa, uma das mais belas florestas da França, a de Roumare, e à minha frente um dos mais belos rios do mundo.

Minha casa é grande, pintada de branco por fora, linda, antiga, cercada por um grande jardim com árvores magníficas e que sobe até a floresta, escalando os enormes rochedos de que lhes falava há instantes.

Minha criadagem compõe-se, ou melhor, compunha-se, de um cocheiro, um jardineiro, uma camareira, uma cozinheira e uma roupeira, que era ao mesmo tempo uma espécie de dispenseira. Todas estas pessoas moravam na minha casa havia dez ou dezesseis anos, conheciam-me, conheciam a residência, a região, todo o ambiente que me rodeava. Eram bons e tranquilos servidores. Isso interessa para o que vou dizer.

Acrescento que o Sena, que estende-se ao longo do meu jardim, é navegavel até Rouen, como devem saber, e que todos os dias via passar grandes navios a vela e vapor vindos de todos os cantos do mundo.

Contudo, há um ano, no outono passado, fui atacado repentinamente por estranhas e inexplicáveis indisposições. Primeiro, foi uma espécie de inquietação nervosa que me mantinha acordado durante noites inteiras, uma super excitação tal que o menor ruído me provocava sobressaltos. Meu humor tornou-se azedo. Tinha cóleras súbitas e inexplicáveis. Chamei um médico, que me receitou brometo de potássio e duchas.

Comecei, então, a aplicar-me duchas da manhã à noite, e a tomar brometo. Logo, com efeito, recomecei a dormir, mas com um sono ainda mais terrével do que a insônia. Mal me deitava, fechava os olhos e desaparecia. Sim, caía no nada, no nada absoluto, numa morte de todo ser da qual era bruscamente acordado pela horrível sensação de um peso esmagador sobre o peito e de uma boca sobre a minha, que bebia minha vida por entre os lábios. Ah! Esses sobressaltos! Não conheço nada de mais horrível.

Imaginem um homem que dorme, a quem tentam assassinar e que acorda com uma faca na garganta e agoniza, coberto de sangue, e não pode mais respirar, e vai morrer e não compreende nada - Aí está!

Emagrecia de uma forma inquietante, contínua, e percebi, subitamente, que o meu cocheiro, que era muito gordo, começava a emagrecer como eu. Por fim, perguntei-lhe:

"O que vc tem, Jean? Está doente?" - ele respondeu: "Acho que peguei a mesma doença do senhor. São minhas noites que me arruínam os dias."

Pensei então que havia na casa uma epidemia de febre, devido à proximidade do rio, e estava a ponto de me afastar por dois ou três meses, embora estivéssemos em plena temporada de caça, quando um pequeno fato muito estranho, observado por acaso, conduziu-me a uma tal cadeia de descobertas inverossímeis, fantásticas e apavorantes, que decidi ficar.

Uma noite, com sede, bebi meio copo d'água e notei que a jarra, colocada sobre a cômoda, em frente da cama, estava cheia até a tampa de cristal. Durante a noite, tive um destes sonos terríveis que acabo de lhes falar. Acendi uma vela, cheio de angústia, e, quando quis beber de novo, percebi estupefato que a garrafa estava vazia. Não podia acreditar nos meus olhos. Ou tinham entrado no meu quarto ou eu era sonâmbulo.

Na noite seguinte, quis fazer a mesma prova.

Fechei, então, a minha porta a chave para estar certo de que ninguém poderia entrar no quarto. Adormeci e acordei como todas as noites. Tinham bebido toda a água que vira duas horas antes.

Quem bebera esta água? Eu, sem dúvida, e no entanto, estava certo, absolutamente certo de não ter feito um só movimento durante o meu sono profundo e doloroso.

Então recorri a estrategemas para me convencer de que não realizava estes atos inconscientes. Uma noite, coloquei ao lado da jarra uma garrafa de vinho bordeaux, uma xícara de leite que detesto e bolo de chocolate, que adoro.

O vinho e os bolos permaneceram intactos. O leite e a água, desapareceram. Substituí, então, todos os dias, as bebidas e os alimentos. Nunca tocaram nas coisas sólidas, compactas e, em matéria de líquidos, só beberam leite fresco e principalmente água.

Mas conservava na alma esta dúvida dilacerante. Não seria eu que me levantava sem ter consciência disso e que bebia até as coisas que detestava? Porque os sentidos, entorpecidos pelo sono sonanbúlico, podiam ter sido modificado, ter perdido suas repugnâncias habituais e adquirido gostos diferentes?

Utilizei então um novo estrategema. Envolvi todos os objetos em que devia infalivelmente tocar com ataduras de musselina branca e cobrio-os ainda com um guardanapo de cambraia. Depois, na hora de deitar, esfreguei as mãos, os làbios e os bigodes com grafite.

Ao despertar, todos os objetos tinham permanecido imaculados, se bem que tivessem sido tocados, porque o guardanapo não estava como eu o colocara; e, além disto, tinham bebido o leite e a água. Ora, nem a porta trancada com um fecho de segurança nem as portas da janela fechadas com um cadeado podiam te deixado passar alguém!

Nesta altura, fiz a mim mesmo esta temível pergunta: Quem é que estava, todas as noites, junto a mim?

Sinto, senhores, que sorriem,já têm a opinião formada: "É um louco!"

Deveria descrever-lhes longamente essa emoção de um homem que, trancado em casa, são de espírito, olha, através do vidro de uma jarra, um pouco d'água desaparecida enquanto dormia. Deveria fazê-los compreender essa tortura renovada todas as noites e todas as manhãs, esse invencível sono e esse despertar ainda mais terrível. Mas continuo.

De súbito, o milagre cessou. Não tocavam mais em nada no meu quarto. Terminara. Aliás, sentia-me melhor. Recuperava a alegria quando soube que um de meus vizinhos, o Sr. Legite, se encontrava exatamente no estado em que eu estivera. Voltei a acreditar na existência de uma epidemia de febre na região. O meu cocheiro deixara-me havia um mê, bastante doente.

O inverno passara, começava a primavera. Ora, uma manhã, quando passeava junto do canteiro das roseiras, eu vi, vi nitidamente, bem perto de mim, o caule de uma das mais belas rosas quebrar-se como se uma mão invisìvel a tivesse colhido; em seguida, a flor fez uma curva que teria descrito um braço ao levá-la até a boca, e ficou suspensa no ar transparente, sozinha, imóvel, assustadora, a três passos dos meus olhos.

Desvairado, lancei-me sobre ela para agarrà-la. Nada encontrei. Ela havia desaparecido. Então, fui tomado de uma cólera furiosa contra mim mesmo. Não se admite que um homem sensato e sério tenha semelhantes alucinações!

Mas seria realmente uma alucinação? Procurei o caule. Logo o encontrei no arbusto, recém quebrado, entre as duas outras rosas que ficaram no ramo; porque vira perfeitamente que eram três.

Então, voltei para casa com o espírito perturbado. Meus senhores, ouçam-me... estou calmo; não acreditava no sobrenatural, ainda hoje não acredito; mas, a partir deste instante, fiquei certo, certo como do dia e da noite, de que existia perto de mim um ser invisível que me perseguia, que me deixava e que agora retornava. Algum tempo depois, tive a prova disto.

Para começar, surgiram todos os dias entre os criados discussões furiosas por mil causas aparentemente fúteis, mas, a partir de então, cheias de sentido para mim. Um copo, um belo copo de Veneza, quebrou-se sozinho, em pleno dia, no armário da sala de jantar. O camareiro acusou a cozinheira, que acusou a roupeira, que acusou não sei quem.

Portas que tinham sido fechadas à noite estavam abertas de manhã. Roubavam leite, todas as noites, na copa: - Ah! O que era ele? De que natureza? Uma curiosidade nervosa, um misto de cólera e terror, mantinha-me dia e noite num estado de agitação extrema. Mas a casa voltou a tornar-se calma; e recomeçara a pensar que se tratavam de sonhos quando aconteceu o seguinte:

Era 20 de julho, às nove horas da noite. Fazia muito calor; deixara a janela completamente aberta e o candeeiro aceso sobre a mesa, iluminando um volume de Musset aberto na Nuit de Mai; depois estendera-me numa grande poltrona, onde adormeci.

Ora, tendo dormido cerca de quarenta minutos, abri os olhos sem fazer um movimento, despertado por não sei que emoção confusa e estranha. A princípio, nada vi, depois, de repente, pareceu-me que uma página do livro acabava de virar-se sozinha. Nenhuma corrente de ar entrara pela janela. Fiquei surpreso e esperei. Uns quarenta minutos depois, eu vi, sim, eu vi, meus senhores, com os meus próprios olhos, uma outra página erguer-se e pousar sobre a procedente como se um dedo a tivesse folheado. A poltrona parecia vazia, mas compreendi que ele estava ali!

Atravessei o quarto num salto para apanhá-lo, para tocá-lo, para agarrá-lo se isto fosse possível. Mas a poltrona, antes que eu a alcançasse, virou como se alguém tivesse fugido diante de mim; o candeeiro caiu e apagou-se, quebrando o vidro; e a janela, bruscamente empurrada como se um malfeitor a tivesse agarrado ao fugir, foi bater com o fecho. Ah!... Corri para a campainha e chamei. Quando o meu camareiro apareceu, disse-lhe:

"Derrubei e quebrei tudo. Arranje-me luz."

Naquela noite não dormi mais. E, no entanto, podia ter sido mais uma vez vítima de uma ilusão. Ao despertar, os sentidos permaneceram confusos. Não seria eu quem tinha derrubado a poltrona e a luz, ao precipitar-me como um louco?

Não, não tinha sido eu! Sabia-o a ponto de não duvidar nem por um segundo. E, entretanto, queria acreditar nisto.

Esperem. O Ser! como o chamarei? O invisível. Não, isto não basta. Batizei-o de Horla. Por quê? Não sei. E o Horla não me deixava mais. Dia e noite, eu tinha a sensação, a certeza desse vizinho inacessível, e também a certeza de que se apoderava da minha vida, hora após hora, minuto após minuto. A impossibilidade de vê-lo exasperava-me, e acendia todas as luzes do meu quarto como se eu pudesse descobri-lo nesta claridade.

Finalmente, eu o vi. Os senhores não acreditam em mim. Mas eu o vi.

Estava sentado diante de um livro qualquer, sem ler, só espreitando, com todos os meus órgãos superexcitados, espiando aquele que sentia perto de mim. Ele estava lá, certamente. Mas onde? O que fazia? Como atingí-lo?

Diante de mim, a minha cama, uma velha cama de carvalho com colunas. À direita, a lareira. À esquerda, a porta, que fechara cuidadosamente. Atrás de mim, um armário muito alto com um espelho que me servia todos os dias para me barbear e me vestir, e onde eu tinha o hábito de me olhar da cabeça aos pés, sempre que passava por sua frente.

Fingia, então, estar lendo para enganá-lo, pois ele também me espiava; e, de súbito, senti, tive a certeza de que ele lia por cima do meu ombro, de que ele estava ali, roçando a minha orelha.

Levantei-me, virando-me tão depressa que quase caí. Pois bem! Enxergava-se como em pleno dia... E eu não me vi no espelho! Ele estava vazio, claro, cheio de luz. Minha imagem não estava lá... E eu estava diante dele...Via de alto a baixo o grande vidro límpido! E olhava para aquilo com um olhar alucinado. Não ousando avançar, sentindo que ele estava entre nós e que me escaparia de novo, mas que seu corpo imperceptível havia absorvido meu reflexo.

Como tive medo! Depois subitamente, comecei a avistar-me numa bruma no fundo do espelho, numa bruma como através de uma toalha d'água; e me parecia que essa água deslizava da esquerda para a direita, lentamente, tornando a minha imagem mais precisa a cada segundo. Era como o fim de um eclipse. O que me ocultava não parecia possuir contornos claramente definidos, mas uma espécie de transparência opaca que ia clareando pouco a pouco.

Pude, enfim, distinguir-me completamente, assim como faço todos os dias ao olhar-me. Eu o tinha visto! Ficou-me o terror daquela visão que ainda me faz estremecer. No dia seguinte, vim até aqui, onde pedi que me guardassem. E aqui termino, meus senhores.

O doutor Marrande, após ter duvidado durante muito tempo, decidiu-se a fazer - sozinho - uma viagem até a minha terra. Atualmente três de meus vizinhos, estão com a mesma doença que eu tive. É verdade? O médico respondeu: "É verdade."

O senhor aconselhou-me a deixarem água e leite, todas as noites, no quarto deles, para ver se desapareciam. Fizeram-no. Esses líquidos desapareceram como em minha casa? O médico respondeu com uma gravidade solene. "Desapareceram"

Portanto, senhores, um Ser, Um Ser novo que, sem dúvida, logo se multiplicará assim como nós nos multiplicamos, acaba de surgir sobre a terra. Ah! Sorriem! Por quê? Porque esse Ser permanece invisível. Mas o nosso olho, meus senhores, é um órgão tão elementar que mal consegue distinguir o que é indispensável à nossa existência. O que é muito pequeno escapa-lhe, o que é muito grande escapa-lhe, o que é muito afastado escapa-lhe. Ignora os milhares de pequenos animais que vivem numa gota d'água. Ignora os habitantes, as plantas, o sol das estrelas vizinhas, nem sequer vê o transparente.

Coloquem à sua frente um espelho sem aço, ele não distinguirá e nos lançará contra ele, como o pássaro que, preso numa casa, vai de encontro aos vidros.

Portanto, ele não vê os corpos sólidos e transparentes que, todavia, existem. Não vê o ar do qual nos alimentamos, não vê o vento, que é a maior força da natureza, que derruba os homens, abate os edifìcios, desenraíza as árvores, faz o mar erguer-se em montanhas d'água que desmoronam as falésias de granito.

O que há de espantoso em que não veja um novo corpo, ao qual falta apenas a propriedade de reter os raios luminosos? Enxergam a eletricidade? E, no etanto, ela existe! Esse ser, que chamei de Horla, também existe.

Quem é? Meus senhores, é aquele que a Terra espera depois do homem! Aquele que vem nos destronar, nos subjugar, nos dominar, e, talvez, alimentar-se de nós, como nos alimentamos dos bois e javalis. Há séculos que é pressentido, temido e anunciado! O medo do invisível sempre perseguiu nossos pais.

Ele chegou.

Todas as lendas de fadas, gnomos e vagabundos do ar, imperceptíveis e maléficos, era dele que falavam, era ele que o homem inquieto e trêmulo já pressentia. E tudo o que os senhores mesmos fazem há alguns anos, aquilo que chamam de hipnotismo, sugestão, magnetismo é ele quem anuncia, é a ele quem profetizam.

Digo-lhes que ele chegou. Ele próprio vagueia, inquieto como os primeiros homens, ignorando ainda sua força e poder que muito em breve conhecerá. E aqui está, meus senhores, para terminar, um fragmento de jornal que chegou às minhas mãos e que vem do Rio de Janeiro. Eu leio:

"Uma espécie de epidêmia de loucura parece alastrar-se há algum tempo na província de São Paulo. Os habitantes de várias aldeias fugiram, abandonando suas terras e suas casas, dizendo-se perseguidos e devorados por vampiros invisíveis que se alimentam de sua respiração durante o sono e que, além disto, só beberiam água, e as vezes leite!"

Acrescento: alguns dias antes do primeiro ataque do mal do qual quase morri, lembro-me de uma galera brasileira com a bandeira desfraldada... Disse-lhes que a minha casa está situada à beira d'água... Inteiramente branca... Ele estava escondido neste barco, sem dúvida... Nada mais tenho a acrescentar, meus senhores. O doutor Marrande levantou-se e murmurou:

"Eu também não. Não sei se este homem é louco ou se ambos somos... ou se... se nosso sucessor chegou realmente."»"

(26 de outubro de 1886)

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